Exus e Pombagiras na Umbanda:

Entre Simbologias, Teologia e Resistência Espiritual

Introdução

A Umbanda é uma religião brasileira que sintetiza elementos africanos, indígenas, kardecistas e católicos. Dentro dessa pluralidade, Exus e Pombagiras ocupam um lugar especial — muitas vezes incompreendido ou estigmatizado.

Este artigo propõe uma análise simbólica, teológica e sociocultural dessas entidades, incorporando as visões de Alexandre Cumino e Rubens Saraceni, que revolucionaram a compreensão desses mistérios na Umbanda Sagrada.

Exus: Guardiões da Luz e da Justiça

Exu é frequentemente confundido com o diabo cristão, fruto de um sincretismo distorcido e racista.

Alexandre Cumino, em Exu Não é Diabo, desconstrói essa ideia ao afirmar que Exu é um Guardião da Luz, responsável por manter a ordem espiritual e proteger os caminhos dos médiuns e consulentes. Ele é o mensageiro entre os mundos, o agente da comunicação e da transformação.

Rubens Saraceni aprofunda essa visão em O Guardião da Luz, onde apresenta Exu como uma entidade regida por leis cósmicas, atuando na justiça divina e na proteção dos terreiros. Exu não é apenas um “tranca-rua”, mas um agente espiritual que trabalha na linha da Lei, da Evolução e da Justiça.


A palavra Exu tem origem na língua yorubá, falada por povos da África Ocidental, especialmente na Nigéria. Em yorubá, o termo é escrito como Èṣù e possui múltiplos significados simbólicos e espirituais, dependendo do contexto religioso e cultural.

Etimologia e Tradução

Èṣù (yorubá) pode ser traduzido como:

  • “Esfera” ou “movimento circular” — sugerindo dinamismo, transformação, continuidade e perfeição.
  • “Mensageiro” — aquele que transita entre mundos e comunica vontades divinas.

Guardião dos Caminhos

  • Exu é o guardião das encruzilhadas, dos caminhos e das decisões. Ele representa o ponto de escolha, o cruzamento entre mundos e possibilidades.
  • Na Umbanda, Exu atua como protetor dos terreiros e das pessoas, abrindo ou fechando caminhos conforme o merecimento espiritual.

Mensageiro Divino

  • Exu é o mensageiro entre os orixás e os seres humanos, responsável por levar e trazer os pedidos, oferendas e respostas espirituais.
  • Por isso, ao chegarmos na entrada do terreiro cumprimentamos a cafua e assentamentos de Exu com expressões como “Laroyê, Exu!”, que significa “Salve, mensageiro!”.

“Exu é o Guardião da Lei, aquele que protege os caminhos e atua na justiça divina.” — Rubens Saraceni

Pombagiras: O Sagrado Feminino em Movimento

Pombagira é a expressão do feminino livre, sensual, sábio e empoderado.

Alexandre Cumino, em Pombagira, A Deusa – Mulher Igual Você, apresenta essa entidade como uma força provocadora que desafia os paradigmas patriarcais e racistas. Ela é a Deusa que acolhe mulheres marginalizadas, que cura feridas emocionais e que ensina o amor-próprio.

Rubens Saraceni, por sua vez, descreve a Pombagira como uma entidade mágica, que atua na linha do Amor e da Magia, equilibrando emoções e promovendo libertações espirituais. Ela não é apenas uma mulher sedutora, mas uma mestra espiritual que trabalha com profundidade e sabedoria.


Exu feminino e mensageira espiritual

Pombagira é considerada uma manifestação feminina da energia de Exu. Ela atua como mensageira entre os mundos espiritual e material, especialmente nas questões ligadas ao amor, à autoestima, aos relacionamentos e à libertação emocional.


Origem do nome

O nome “Pombagira” pode ter derivado de variações como:

  • Bombogira, Pambunijila, Pambujira, dentre outros — termos africanos que designavam entidades espirituais ligadas à força feminina.
  • Com o tempo, essas expressões foram associadas a espíritos de mulheres independentes, intensas e transgressoras, que retornam como entidades para ajudar os vivos.

Símbolo de força, sensualidade e justiça

Pombagira representa a mulher em sua expressão máxima: livre, sábia, sensual e corajosa.

Ela rege os prazeres, a autoestima e a transformação emocional. É conhecida por sua risada forte, sua postura firme e sua capacidade de quebrar amarras espirituais.

“Se Exu é ação, Pombagira é vontade.” — Era Sideral

“Pombagira é a mulher que se fez Deusa, que se fez livre, que se fez inteira.” — Alexandre Cumino

A Demonização de Exus e Pombagiras

A imagem de Exus e Pombagiras foi historicamente demonizada por influências coloniais, cristãs e racistas. A associação de Exu com o diabo é resultado de uma leitura eurocêntrica que não compreende os símbolos africanos e afro-brasileiros. Essa distorção gerou medo, preconceito e marginalização das práticas umbandistas.

Pombagiras, por sua vez, foram reduzidas a caricaturas de mulheres “fáceis” ou “perigosas”, ignorando sua profundidade espiritual e sua atuação como curadoras e conselheiras. A sensualidade que expressam foi confundida com vulgaridade, e sua força com ameaça.

Autores como Cumino e Saraceni trabalham para reverter essa visão, mostrando que essas entidades são forças de luz, justiça e amor. A demonização não é apenas religiosa — é também social, pois reflete o medo da liberdade, da sexualidade e da espiritualidade não institucionalizada.

“Exu não é diabo. Pombagira não é prostituta. São entidades que trabalham na luz, com ética e propósito.” — Alexandre Cumino

Teologia de Umbanda Sagrada: Estrutura e Mistério

Rubens Saraceni criou a Teologia de Umbanda Sagrada, que organiza os mistérios da religião em linhas de atuação espiritual. Exus e Pombagiras são compreendidos dentro dessa estrutura como Guardiões e Mestras, atuando em campos específicos da vida humana: caminhos, emoções, sexualidade, justiça e comunicação.

Essa teologia permite compreender que essas entidades não são “espíritos zombeteiros”, mas forças cósmicas que trabalham para o bem, dentro de uma lógica espiritual profunda e organizada.

Conclusão

Exus e Pombagiras são entidades complexas, poderosas e profundamente humanas em sua espiritualidade. Ao incorporar as visões de Cumino e Saraceni, rompemos com estigmas e nos aproximamos de uma Umbanda que é acolhedora, libertadora e transformadora. Eles não são o “lado sombrio” da religião — são o espelho da alma, o grito da liberdade e o abraço da justiça.

Fontes e Referências Bibliográficas

  • CUMINO, Alexandre. Exu Não é Diabo. Madras Editora, 2010.
  • CUMINO, Alexandre. Pombagira, A Deusa – Mulher Igual Você. Madras Editora, 2021.
  • SARACENI, Rubens. O Guardião da Luz – Exu na Umbanda Sagrada. Madras Editora, 2004.
  • SARACENI, Rubens. Pombagira – A Magia Feminina na Umbanda. Madras Editora, 2005.
  • ROSÁRIO, Victor Lean do et al. Do tambor ao “trabalho”: aspectos de Exus e Pombagiras em um terreiro de Mina. Margens, v. 15, n. 24, 2021.
  • GIAN, F.; GIAN, M. Exus e Pombas-Giras: o masculino e o feminino nos pontos cantados da Umbanda. Psicologia em Estudo, v. 6, n. 2, 2001.
  • GOMES, Adriano O. Trajano. As múltiplas faces de Exu na Umbanda. Revista Plura, v. 3, n. 1, 2012.
  • ERA SIDERAL. Pombagira: história, características, rituais, oferendas e relação com seus médiuns. Era Sideral, 2 mar. 2025. Disponível em: https://erasideral.com/matriz-africana/2025/03/02/pombagira-historia-caracteristicas-rituais-oferendas-e-relacao-com-seus-mediuns/. Acesso em: 22 set. 2025.

Goiânia/GO, ano 2026.

Livre pesquisa:

Mauro Branquinho

Médium da Casa de Caridade Solar Vovó Maria Conga;

Advogado;

Pós-graduando em Teologia, Cosmologia e Cultura Afro Brasileira

pelo Instituto Cultural Aruanda – EAD Ubuntu;

Coordenador Jurídico do CUEGO - Conselho de Umbanda do Estado de Goiás;

Membro da CELR - Comissão Especial de Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil/seccional GO.

Intolerância religiosa:

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