Da Escravização à Luz:

A Jornada dos Pretos Velhos

A história tem início nas vastas terras africanas, onde povos livres viviam em harmonia, sustentados por culturas vibrantes, espiritualidade profunda e saberes ancestrais transmitidos de geração em geração.


A chegada dos colonizadores europeus marcou o início de uma das maiores tragédias da humanidade: a escravização de milhões de homens, mulheres e crianças.

Famílias inteiras foram despedaçadas; crianças arrancadas dos braços maternos; aldeias reduzidas a cinzas; identidades e memórias coletivas dilaceradas.


Capturados à força, esses seres humanos eram amontoados nos porões dos navios negreiros — verdadeiros tumbeiros flutuantes.

A travessia do Atlântico, conhecida como passagem intermediária, era um percurso de horror: fome, sede, doenças, torturas e morte acompanhavam cada onda. Muitos sucumbiam antes de avistar terra firme, e seus corpos eram lançados ao mar, apagando vidas como se fossem descartáveis.

Entre as inúmeras violências, as mulheres africanas eram alvo constante de abusos sexuais por parte de tripulantes e senhores, sendo tratadas como propriedade não apenas para o trabalho forçado, mas também para a exploração de seus corpos.

Essa violência deixava marcas profundas, perpetuando traumas individuais e coletivos que atravessaram gerações.

Os que sobreviviam desembarcavam no Brasil em condições desumanas, reduzidos à condição de mercadoria, privados de liberdade, de dignidade e até do direito de contar a própria história.

Durante séculos, africanos e seus descendentes foram submetidos no Brasil ao trabalho forçado, à violência física e psicológica e à negação sistemática de sua humanidade. Ainda assim, sob o peso da escravidão, resistiram de múltiplas formas — e uma das mais poderosas foi a preservação da fé ancestral, profunda e enraizada nas tradições trazidas de diferentes regiões da África.

Essa espiritualidade atravessou o Atlântico e, em solo brasileiro, adaptou-se às condições impostas pelo regime escravista. Muitas vezes, foi disfarçada sob símbolos do catolicismo, num processo de sincretismo religioso que permitiu manter cultos a orixás, voduns e inquices sob a aparência de devoção a santos católicos.

A resistência também se manifestava no cuidado coletivo: escravizados compartilhavam saberes, transmitiam oralmente histórias e cantos, e preservavam conhecimentos de cura com ervas — práticas herdadas da África e enriquecidas pelo contato com povos indígenas. Plantas como arruda, boldo, barbatimão e alecrim eram utilizadas tanto para tratar doenças quanto para proteção espiritual.

A música e a dança, presentes nos batuques, jongos e vissungos, eram mais que lazer: funcionavam como alívio da dor, meio de comunicação e afirmação cultural. Nessas rodas, a união se fortalecia, e a esperança se mantinha viva.


Assim, a resiliência tornou-se arma silenciosa, e a fé — moldada pela ancestralidade e pela adaptação — foi o alicerce que sustentou gerações na luta pela sobrevivência e dignidade.

Com o passar do tempo, muitos espíritos de antigos africanos escravizados e de seus descendentes, após desencarnarem, evoluíram espiritualmente e alcançaram planos superiores de consciência.

Na Umbanda, manifestam-se como Pretos Velhos — entidades de luz, reconhecidas por sua serenidade, humildade, paciência e profundo amor ao próximo.

Esses guias representam a ancestralidade negra e carregam consigo a memória viva de um povo que sofreu sob a escravidão, mas que resistiu e se elevou pela fé e pela união. Sua missão é oferecer cura espiritual, muitas vezes pela palavra, pelo aconselhamento, pela reza e pelo benzimento, transmitindo ensinamentos sobre perdão, resiliência e equilíbrio interior.

A iconografia tradicional os apresenta sentados em banquinhos, vestindo roupas simples, muitas vezes com um cachimbo ou rosário nas mãos — símbolos de sabedoria, conexão ancestral e simplicidade. Essa postura humilde não diminui sua força: ao contrário, revela que a verdadeira autoridade espiritual nasce da experiência, da compaixão e da capacidade de acolher sem julgamento.


Mais do que conselhos, os Pretos Velhos oferecem acolhimento e proteção energética, limpando cargas negativas e fortalecendo aqueles que os procuram. São arquétipos de sabedoria espiritual, guias que ensinam sobre fé, humildade, força interior e amor incondicional.

A mensagem que deixam ecoa através das gerações: mesmo diante da dor mais profunda, é possível encontrar luz; mesmo quando tudo parece perdido, há sempre um caminho de cura, união e evolução.

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Goiânia/GO, ano 2026.

Livre pesquisa:

Mauro Branquinho

Médium da Casa de Caridade Solar Vovó Maria Conga;

Advogado;

Pós-graduando em Teologia, Cosmologia e Cultura Afro Brasileira

pelo Instituto Cultural Aruanda – EAD Ubuntu;

Coordenador Jurídico do CUEGO - Conselho de Umbanda do Estado de Goiás;

Membro da CELR - Comissão Especial de Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil/seccional GO.

Intolerância religiosa:

Disque 100 registra 2,4 mil casos em 2024

DEACRI - Delegacia Estadual de Atendimento às Vítimas de Crimes Raciais e de Intolerância - PCGO

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Disque 100

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